A História da
Arte Drag
Por Maria Beatriz Negreiros

As drag queens estão muito populares hoje, mas essa arte e performance não nasceu ontem. Nesta sessão, a doll vai viajar no tempo e contar as origens da drags e explicar os simbolismos contidos nessa expressão artística tão importante e forte no movimento LGBTQIAP+.

PARA AS "HETERÁS" E BICHAS BURRAS
Antes de contar a história das drags queens, é bom ter alguns conceitos claros para os leitores:
drag queen ≠ identidade de gênero
Ser drag não tem a ver com a sexualidade.
Embora seja mais conhecida nas mão de homens gay de peruca, a arte drag não está relacionada com a identidade de gênero ou a sexualidade. Quem faz drag não quer ser a personagem que interpreta, afinal é uma personagem, e ser drag não diz nada sobre a sexualidade de quem faz. Hoje temos exemplos que quebram os padrões do que a sociedade espera de quem faz drag, por exemplo a cantora americana Chappell Roan: drag, mulher cis e lésbica.


SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA...
Considerando que a drag é uma arte transformista, ou seja, de transformação, tudo começou no teatro grego. Com o uso de máscaras, as personagens masculinas e femininas eram exclusivas de interpretação dos homens. Por volta de 1100 d.C. a igreja decide investir no teatro, fazendo pequenas encenações para melhor o entendimento dos fiéis das histórias e mensagens da bíblia. Como a instituição não abria espaço para a participação da mulher quem assumia o papel dos anjos, seres assexuados, e as Marias, eram meninos adolescentes.
私は スタ - watashi wa sutaa - Eu sou uma estrela
A transformação do artista masculino para a personagem feminina não é exclusiva do Ocidente. No Japão, lugar no Oriente onde essa arte era mais popular e conceituada, os teatros Kyogen e Nô eram exclusivos dos homens e no teatro Kabuki alguns atores se formavam para a performance exclusiva de personagens femininas - o onnagata (女形).
Em 1629 as mulheres foram proibidas de atuar no Kabuki devido à prostituição que acontecia nos bastidores, essa proibição no entanto não resolveu o problema já que os atores mais jovens também eram cobiçados pelo público.
O trabalho dos atores transformistas era levado tão a sério que o ator Yoshizawa Ayame acreditava que os intérpretes de mulheres não deveriam sair da personagem. Yoshizawa, mesmo fora dos palcos, usava roupas femininas, peruca e maquiagem.




Ser ou não ser, eis a questão
Voltando para o Ocidente, no século XVI com o teatro já desvinculado da igreja, a commedia dell’arte ressuscita as máscaras e a transformação do ator que vem com elas. Aqui, as mulheres participavam mas as máscaras eram exclusivas para os homens.
Paralelamente, na Inglaterra, surge o homem que mudaria a dramaturgia para sempre: William Shakespeare. A princípio seus personagens femininos mais icónicos – Julieta, Ofélia e Lady MacBeth – eram interpretados por meninos adolescentes.
Contam que ao rodapé da página em que descrevia as mulheres de suas peças, Shakespeare escrevia a sigla DRAG, dressed as a girl, para sinalizar que aquela personagem seria feita por um homem. No entanto, não há provas que isso seja verdade.
Durante alguns anos o teatro foi proibido na Inglaterra e na sua volta as mulheres obtiveram permissão para atuarem, mas as drags ainda conseguiram sobreviver nos palcos por mais um tempo nos palcos.
Irmãs que abriram o caminho



No século XVIII, as coisas mudam de figura. Consequência das mudanças na sociedade, a drag se torna uma personagem satírica e marginalizada e pela primeira vez é atrelada ao homem homossexual. Surgem nessa época as Molly Houses.
Molly era a nomenclatura para os homens que hoje se identificam como gays, bissexuais ou queer e as molly houses eram pontos de encontros íntimos para homossexuais e para performances de drag.
Por volta do séc XIX, as drags voltam para o teatro mas dessa vez no lugar de alívio cômico, como damas pantomímicas. Essas personagens falavam com a classe média e trabalhadora daquele tempo e o público se identificava com elas, até os anos 40 do século XX foi a única forma de drag queen aceita e respeitada.
Depois da Segunda Guerra Mundial tudo que envolve as drag queens seria revisto, motivado pelas fortes mudanças sociais que se sucederam desse momento histórico, como por exemplo: o surgimento da televisão, evolução do cinema, a cultura pop e o movimento gay. O ator que faz drag agora tem que cantar, dançar e personificar mulheres icônicas.
A avalanche cultural e política a partir dos anos 60 deu uma bagagem imensa para as drag queens.
E a partir da década de 70 elas entraram no mundo do cinema! E falando em cinema, confira as recomendações de filmes LGBTQIAP+ da doll Maria Luísa Vaz.



Em 1980 a comunidade gay foi devastada pela epidemia da AIDS, esse momento forçou as drags a se recolher mais uma vez, mas sua volta ao final da década foi política e um sinal de resistência.
A arte drag toma força total nos anos 90 com a nova função de entretenimento que ela agrega para si. RuPaul, drag queen americana, é a cara dessa nova era.

Desde 2009, RuPaul tem seu próprio programa de televisão, o RuPaul's Drag Race, um dos maiores reality shows do mundo. No reali, drag queens dos Estados Unidos competem pelo título de próxima drag queen superstar em provas de costura, atuação, lipsync e dança.
O reality show de RuPaul apresenta a comunidade gay e o artista drag queen para as pessoas de fora, além de dar a chance dos participantes serem reconhecidos e continuar com seu trabalho de transformistas. Muitas das drags mais famosas do mundo participaram do reality, que atualmente conta com 16 temporadas, fora as 9 da edição All Stars do programa.
Hoje as drags queens são reconhecidas fora da bolha LGBTQIAP+, mas nunca deixaram de carregar sua bandeira. Embora mais aceitas agora, as drags queens nunca pararam de chocar, estranhar, fascinar e quebrar os padrões de gênero e sexualidade. A drag queen nos mostra que não há limites para o que podemos ser e criar.



VOCÊ PRECISA CONHECER: A primeira drag queen dos Estados Unidos

William Dorsey Swann nasceu na condição de escravo em 1858 em Maryland e foi libertado em 1862, quando Abraham Lincoln assinou o Ato de Emancipação. Na vida adulta, Swann organizava bailes em sua casa com outros homens pretos e homossexuais, nessas festas os convidados poderiam exercer um outro lado da liberdade, experimentar uma nova expressão de gênero e orientação sexual com o acolhimento de iguais.
Swann era abertamente gay e foi a primeira pessoa a se autointitular drag queen nos Estados Unidos. Em seus bailes ele e seus amigos dançavam e desfilavam vestidos com as roupas femininas típicas da época. Uma das atrações da noite era o cakewalk, onde o melhor dançarino ganhava um hoecake ou outro doce.
Os bailes de Swann foram interrompidos pela polícia diversas vezes, mas Swann sempre bateu de frente e defendeu seus iguais, ele é considerado um dos pioneiros da resistência queer, já que foi o primeiro americano registrado a tomar medidas legais e defender o direito da comunidade de se reunir sem a ameaça de criminalização, repressão ou violência policial.